Aliás, o que é fundamentalismo?

“O que é um fundamentalista?” Fica difícil responder esta pergunta, uma vez que a palavra ‘fundamentalista’ pode significar muitas coisas para muitas pessoas. Podemos resumir seu significado e traçar — em linhas gerais — sua evolução com estas 4 considerações:

1. No fim do século XIX e início do século XX, houve um crescimento do liberalismo teológico radical nas principais denominações históricas dos Estados Unidos.[1] Importado de Alemanha, esse liberalismo semeava dúvida no campo da fé ortodoxa. Neste contexto, o termo ‘fundamentalista’ se refere a coligação de teólogos e pastores que defenderam a fé cristã ortodoxa nos seus seminários e igrejas.
Em 1910, uma coletânea de textos escritos por 64 teólogos de diversas denominações, publicada como “Os Fundamentos”, defenderam “a inspiração das Escrituras por meio do Espírito Santo, o nascimento virginal de Cristo, sua morte salvadora e vicária, a realidade histórica de seus milagres e da ressurreição corporal de Cristo e seu retorno final em glória”.[2] Estes cinco pontos foram considerados fundamentais; sem eles, argumentavam os fundamentalistas, teríamos um “cristianismo sem adoração, um cristianismo sem Deus, e um cristianismo sem Jesus Cristo”[3]. O movimento fundamentalista ganhou força. Em 1919, o pastor batista W. B. Riley, fundador da Associação Mundial dos Fundamentalistas Cristãos, afirmou com otimismo: “Chegou a hora do surgimento de um novo Protestantismo”[4]. Esta primeira fase é conhecida como fundamentalismo histórico.

2. Entretanto, em meados de 1920, houve uma sequência de rachas entre os próprios fundamentalistas. Os fundamentalistas separatistas, uma boa parte deles batistas e presbiterianos[5], alegavam que os demais não adotavam uma atitude militante o suficiente contra os liberais. Mais tarde, os separatistas exigiam, além das doutrinas fundamentais, concordância em questões culturais (abolição de bebidas alcóolicas) e visões escatológicas (pré-milenarismo). Ainda mais tarde, foi comum acrescentar também à lista de exigências o uso de uma única tradução bíblica (em inglês, o King James Version), a proibição de certas vestimentas (como calças femininas), ou separação do ministério do Billy Graham[6].

3. Na mídia, encontramos o uso da palavra ‘fundamentalista’ para se referir à uma pessoa que é avessa a mudança, seja por motivação religiosa ou não. Seu objetivo é forçar a cultura do seu país a adotar costumes tradicionais. Assim, existem judeus fundamentalistas, islâmicos fundamentalistas, etc.

4. Na linguagem coloquial, um fundamentalista é aquela pessoa que, de forma cega, não considera as opiniões dos outros, não dá ouvido a discussões (saudáveis ou não) e não permite que suas opiniões sejam contrariadas. Em muitas ocasiões, a palavra é usada de forma pejorativa.[7]

IMPLICAÇÕES:

1. No nosso dialogo, é importante lembrar-nos que nossos termos podem ter uma variedade de definições. Ao me referir ao “movimento fundamentalista”, posso ter em mente os conservadores teimosos da 1ª geração de fundamentalistas históricas, enquanto meu ouvinte pode ter em mente uma experiência dolorosa que vivenciou em uma igreja legalista.

2. É curioso notar como movimentos evoluem com o passar dos anos. Raramente são imutáveis. Como cristãos, a nossa esperança deve ser ancorada no Evangelho de Jesus Cristo, independentemente de quais movimentos, personalidades ou exageros estão ’em alta’ no campo teológico.

3. As maiores batalhas serão sempre acerca da simplicidade do Evangelho. Os dogmas da nossa fé são poucos mas são poderosos. Devemos conhece-los, confessa-los e defende-los.

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[1] Entendendo os fundamentalistas – Parte 1, Augustos Nicodemus, http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=29
[2] A Igreja Cristã na História das Origens aos Dias Atuais, Franklin Ferreira, Editora Vida Nova, pg. 66.
[3] Shall Unbelief Win?, Rev. Clarence Edward Macartney,
http://www.thisday.pcahistory.org/2014/07/july-13/
[4] Os Fundamentos, R. A. Torrey, Prefácio de Warren W. Wiersbe,
[5] Fundamentalism at the End of the Twentieth Century, David Burggraff, http://www.biblicalstudies.org.uk/pdf/cbtj/11-1_003.pdf
[6] 3 Types of Fundamentalists and Evangelicals after 1956, Justin Taylor,
http://www.thegospelcoalition.org/blogs/justintaylor/2015/01/23/3-types-of-fundamentalists-and-evangelicals-after-1956/
[7] http://www.palavraprudente.com.br/prudente/estudos/questao.html