O amor de Deus assegura nossa salvação

“Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que por ele vivamos.” (1 João 4.9)

Estas são as boas novas de grande alegria: O perdão dos nossos pecados é diretamente ligado ao amor de Deus. Somos tão perdoados quanto somos amados. E a cada nova manhã, o perdão de Deus é tão seguro quanto é o seu amor por nós.

Reflita sobre esta preciosidade: a certeza da nossa salvação é embrulhada no amor de Deus. Não há como separar um do outro. O apóstolo Paulo pergunta, “Quem nos separá do amor de Cristo?” E a resposta ecoa por toda a eternidade: “Nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Rm 8.39). A nossa certeza é fincada nesta promessa; nossas almas são ancoradas nessa garantia.

Sempre que duvidamos da realidade do amor de Deus, nossa certeza de salvação também é ofuscada. Frutas ressecadas procedem de árvores não saudáveis. Da mesma forma, uma salvação momentânea só pode ser gerada por um amor meramente esporádico. Somente um amor eterno pode gerar salvação eterna.

Irmãos, somos salvos por amor do Seu nome (1Jo 2.12). Nossos maiores pecados foram perdoados por amor do Seu nome. Nossas transgressões mais secretas foram perdoadas por amor do Seu nome. O filho pródigo encontrou perdão no abraço amoroso do seu pai. Em Jesus Cristo, este abraço não se desfará. Enquanto Jesus Cristo manifestar o amor do Pai (eternamente!), viveremos (eternamente!). Viveremos aceitos, acolhidos, amados e assegurados.

Talvez, você esteja chocado com o tamanho ou a diversidade dos seus pecados. Aquele que acusa os santos talvez te acusa neste momento. Irmão, volte seus olhos para Cristo. Veja o Seu amor. Tente descreve-lo. Tente medi-lo. “Vede quão grande amor nos tem concedido o Pai, que fôssemos chamados filhos de Deus” (1Jo 3.1). Em Jesus Cristo você é amado e perdoado, eternamente.

Os Anabatistas negavam o conceito da igreja universal?

Aos meus irmãos batistas que negam a existência da igreja universal, argumentando que somente os protestantes e Católicos Romanos defendiam esta doutrina, e afirmando que “os anabatistas não criam desta forma”, espero que expliquem exatamente quais anabatistas negaram a doutrina da igreja universal.

Cito abaixo um catecismo anabatista, escrito por um dos principais teólogos anabatistas, Balthasar Hubmaier, torturado e morto por sua fé em 1528:

“A igreja é entendida como incluindo todas as pessoas reunidas e unidas em um só Deus, um Senhor, uma fé, e um batismo, tendo confessado a fé com suas bocas, aonde quer que estejam nesta terra. Portanto, essa é a igreja Cristã universal e comunhão dos santos, reunidos somente no Espirito Santo… Outras vezes, entendemos que a igreja se refere a cada assembleia externa ou paróquia, reunida sob um pastor ou bispo, que se reúne para instrução, batismo e a Ceia do Senhor.”[1. Hubmaier, “Catechism,” 351– 52; Hubmaier, Schriften, 315. (2013-09-15). Citado em “The Anabaptists and Contemporary Baptists: Restoring New Testament Christianity” (Kindle Location 4036). B&H Publishing Group. Kindle Edition.]

O Perigo do Tradicionalismo

Bem invalidais o mandamento de Deus para guardardes a vossa tradição. (Marcos 7.9)

O valor de um vinho é dito pela sua idade; quanto mais antigo, mais precioso é. Mas a Verdade divina não é assim. Há dois mil anos, as palavras de Cristo foram tão preciosas quanto são hoje. Adoramos o Deus da antiguidade, de fato, mas não é a Sua antiguidade que o faz merecer a nossa adoração. Ele merece toda a glória para todo sempre por ser o Deus único e verdadeiro. 

É normal o ser humano sentir receio de mudanças. Nas nossas rotinas e dia-a-dia, preferimos o que é comum. Mas as palavras de Cristo neste versículo nos fazem refletir sobre as nossas próprias tradições. Nem sempre a tradição deve ser repetida. Os fariseus não quiseram negar suas tradições para obedecer a Deus. Não quiseram abrir mão daquela série de ensinos e expectativas passados de pai para filho já há tantas décadas. “Como podemos abrir mão daquilo que nos assegura da nossa justiça? Como desacreditar aquilo que nos passa tanta certeza que estamos nos caminhos de Deus?” Pode ser que suas tradições começaram com boas intenções: um cuidado em executar toda a lei de Deus, uma preocupação em estimar a opinião dos sábios mais antigos. Mas aos poucos aquela tradição foi sugando a vida daquela religiosidade, exterminando qualquer sinal de graça ou obediência genuína. Amaram mais ao tradicionalíssimo do que à genuinidade. 

O tradicionalismo surge sutilmente. Russell Shedd comenta:

“Assim como o camaleão, que se esconde nas rochas ou na selva conformando-se ao pano de fundo, os tradicionalistas querem, a todo custo, acompanhar os costumes dos que ingressaram na igreja antes deles e pensar como eles pensam. […] O tradicionalista mostra zelo pela “lei” de sua igreja e denominação, porque entende que aí ele encontra o receptáculo da sabedoria dos séculos. Uma vez que os sábios teólogos do passado destilaram da Bíblia e do cristianismo histórico o que realmente importa, porque não concluir que a obrigação que a graça exige está nessa tradição?”[1. SHEDD, Russell. Lei, Graça e Santificação, Edições Vida Nova, 2012, p. 35.]

E este é o grande perigo em seguir o mero tradicionalismo: somos levados a despejar sua fé na própria tradição. “Não posso errar enquanto eu estiver copiando os puritanos neste sentindo, os monges da Idade Média neste sentido, e meu pastor favorito neste outro sentido.” Mas a segurança da nossa salvação não se encontra na imitação de homens. A salvação e todas suas implicações surgem da pessoa de Jesus Cristo. A tradição pode testificar a essa Verdade, mas nunca poderá substitui-lá.

Como se proteger do tradicionalismo? Sugiro quatro atitudes:

  1. Reconheça que a verdadeira tradição cristã é aquela que aponta a Cristo, e não a si mesmo. Quando Paulo disse, “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1Co 11.1), a ênfase está na pessoa de Cristo. Paulo não procurava que seus ouvintes fossem pequenas cópias xerox de si mesmo. Antes, desejava que sua obediência a Cristo incentivasse os demais a fazer o mesmo.
  2. Procure conhecer as raízes das suas tradições. Como surgiram? Aonde surgiram? Como foram modificados tanto para o bem como o mal ao longo dos anos? Quais são seus pontos fracos? Quem defendia essa tradição, e quais foram seus argumentos? Estude a genealogia das suas tradições eclesiásticas, culturais e teológicas. Conhecendo sua história, você poderá defende-la com convicção.
  3. Lembra-se que devemos obedecer a Deus hoje. O que homens santos fizeram ou deixaram de fazer a 500 anos atrás não pode servir de desculpa por sua desobediência atual. Você é responsável pelo que você faz hoje.
  4. Antes de comparar-se com sua tradição, compare-se com a Palavra de Deus. Por mais que você estime a sua genealogia teológica, não será ela que te julgará; responderemos à Palavra de Deus (Jo 12.48). Tradições são sujeitas a mudanças, para bem ou mal. Somente a Palavra de Deus permanecerá para sempre. 

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Catecismo simples para pequenos grupos | New City Catechism em português

Produzido pelo Gospel Coalition, o Catecismo New City conta com vídeos curtos, comentários de diversos pastores e orações de puritanos, além do formato típico com 52 perguntas e respostas. Um material rico e gratuito.

Infelizmente, ainda não existe uma tradução oficial do material. Mas disponibilizo abaixo uma tradução pessoal de 28 perguntas extraídas do Catecismo New City, que usei em reuniões de oração de um pequeno grupo em 2013.  Para cada pergunta e sua resposta, acrescentei alguns comentários referentes às implicações da verdade em foco.

Clique aqui para baixar o PDF: catecismo New City – 28 perguntas e respostas

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A oração ecumênica do Papa Francisco

Em vídeo lançado pelo Vaticano, o Papa Francisco convoca todas as religiões para diálogo e edificação mútua, que supostamente produzirá “frutos de paz e justiça”. O vídeo de 90 segundos conta com as participações de um islâmico, judeu, budista e católico romano que confessam fé em suas divindades respectivas. Por confiarem em alguma divindade, o Papa Francisco afirma que todos estão “buscando e encontrando a Deus de diversas maneiras“. Perante essa diversidade de religiões, o Papa afirma que há somente uma coisa da qual podemos ter certeza: “todos somos filhos de Deus“. O vídeo encerra ressaltando que, apesar das diferenças teológicas, todos crêem em amor.

Algumas considerações importantes:

  • Crer em uma divindade é fácil; dificil é se submeter ao Único verdadeiro. “Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o crêem, e estremecem.” (Tiago 2.19)
  • Todos os homens podem acreditar no amor mas enquanto não conhecem o Deus que “amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito“, estão perdidos nas trevas.
  • A salvação nunca dependeu de quem somos e sim de quem Deus é. Logo, não importa se somos todos criaturas de Deus, “filhos de Deus” ou até buscadores da verdade. A verdadeira religião parte de Jesus Cristo para conosco, e não vice-versa. “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém chega ao Pai, a não ser por mim. Se, de fato, me conhecêsseis, também conheceríeis meu Pai…” (João 14.6)
  • A exclusividade da Verdade sempre foi escandalosa para aqueles que preferem inventar suas próprias formas de chegar na presença de Deus. Quando Jesus pregava que é possível conhecer a verdade que liberta da escravidão do pecado, seus ouvintes Lhe chamaram de endemoniado e procuraram apedreja-Lo (João 8.36,48).
  • Paz e justiça são frutos da obra de Jesus Cristo, e não do simples diálogo ecumênico. “Portanto, justificados pela fé, temos paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo…” (Romanos 5.1).

Ecumenismo, no seu sentido mais básico, promove a união na diversidade. Entre os remidos por Cristo deve haver sim união apesar de diferenças econômicas, culturais ou tradicionais. Entretanto, enquanto Jesus Cristo for rejeitado, a união cristã é totalmente inviável. Não há união ou adoração em verdade fora de Cristo porque “não há salvação em nenhum outro, pois debaixo do céu não há outro nome entre os homens pelo qual devamos ser salvos” (Atos 4.12).

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Você é um gnóstico evangélico?

É fascinante o quanto uma filosofia herética dos primeiros séculos pode permear o pensamento cristão em pleno século 21. Uma atividade interessante é se perguntar: “Consigo imaginar Jesus Cristo fazendo atividades comuns?” Veja como sentimos uma aversão inexplicável quando é sugerido que Cristo ria de piadas, tomava vinho com seus irmãos judeus, assistia algum evento esportivo, conversava sobre temas políticos ou apreciava uma música cultural. Parece-nos impossível que Jesus tenha ‘perdido seu tempo’ com atividades ‘comuns’ porque no fundo, acreditamos que tudo – exceto as conversas teológicas ou cultos religiosos – sejam banais para Deus. Somente o espiritual tem algum valor.

É por isso que pode ser dito que o gnosticismo dos primeiros séculos ainda permeia muito pensamento cristão. Os gnosticos, representando a filosofia grega daquela época, criam que a matéria é má e somente o espírito é bom. De acordo com esse dualismo, nossos corpos inúteis servem somente como vasos para nossos espíritos eternos. O alvo de todo homem é buscar um conhecimento especial (gnosis) que o elevará à perfeição. Uma boa feijoada é frívola; um salário melhor é banal; um bom filme ou obra de arte é inútil. E conforme o gnosticismo infiltrava as discussões cristãs, argumentava-se que Deus só se agrada naquelas expressões espirituais: tempo devocional, oração e meditação na Palavra.

Um pouco mais adiante, a igreja Católica Romana ensinava que há uma distinção concreta entre o secular e o sagrado. O trabalho do pedreiro é secular enquanto o padre se empenha naquilo que é sagrado. Qualquer música que não seja de cunho religioso é secular enquanto qualquer festa promovida pela igreja é santa. Aos poucos foi disseminada a ideia que o religioso tem mais valor para com Deus do que o comum.

Não é tarefa difícil encontrar traços destes pensamentos no meio evangélico. Por exemplo:

  • Supor que um pastor está em um nível espiritual que dificilmente será alcançado por um leigo.
  • Definir como ‘carnal’ qualquer coisa que traz benefícios ou agrado ao corpo humano. O uso de maquiagem, por exemplo, é sinal de carnalidade.
  • Toda festa deve incluir um momento de exortação espiritual. Se faltar, Deus não foi louvado pela comemoração.
  • Quanto mais cultos por domingo (ou por semana) melhor, mesmo que cause exaustão nos membros.
  • Espera-se que quem faz um curso de música a faz primordialmente para poder participar na adoração da igreja.
  • Desejos sexuais são sujos e devem ser tratados com tal. No casamento, a expressão sexual é um ‘mal necessário’.
  • Entretenimento só é válido se for breve e barato já que, para serem bem investidos, tempo e dinheiro deverão ser investidos em missões.
  • Assume-se que um missionário que sacrificou muito para estar em uma terra distante agrada muito mais a Deus do que o simples cristão que alimenta e instrui seus filhos na sua cidade natal.
  • A diversão, em grande parte, é uma distração satânica. Quem é dedicado, não se diverte. As obras que glorificam a Deus deverão ser sempre difíceis, dolorosas e de alto custo.
  • Um cristão não pode enxergar beleza em quaisquer obras de arte se feitas por artistas não-cristãos. Entretanto, toda expressão artística feita por cristãos deve ser aplaudida pela comunidade evangélica.
  • Tendo um dom ou chamado, não é necessário estudar em ambientes acadêmicas, já que Deus já te deu toda a capacitação santa que você necessita.
  • Toda e qualquer atividade promovida pela igreja merece igual atenção e participação de todos os membros.
  • Versículos como Rm 7.24 (“Quem me livrará do corpo desta morte?“) ou Rm 8.8 (“Os que vivem na carne não podem agradar a Deus“) são interpretados pela lente gnostica, insinuando que o corpo só atrapalha a expressão perfeita do espírito.

Os exemplos acima compartilham entre si a ideia de que a espiritualidade é de muito mais valor do que o material. E por isso, muitos cristãos hoje não podem imaginar que Jesus Cristo expressou sua humanidade até nas coisas materiais. Como garoto, Cristo não pode ter um prato, uma roupa ou brinquedo favorito e nem se alegrava com presentes. Como adulto, não apreciava músicas ou obras de artes a não ser aquelas ligadas diretamente com a mensagem Messiânica.

Uma das implicações deste gnosticismo evangélico é a crescente isolação dos cristãos. Deixam de se envolver nas artes, na economia, na política ou nas discussões populares. Não vêm valor em produzir profissionais cristãos, respeitados no mercado ‘secular’ ou estudantes bem lidos que interagem com seus professores no ambiente acadêmico. Prevalece o sentimento que, já que nosso reino não é deste mundo, não devemos participar no andamento do mesmo. A matéria pertence aos ímpios; nós interagimos no meio espiritual somente.

DEUS CRIOU O MUNDO 

Entretanto, segundo o relato de Gênesis, Deus criou tanto a matéria quanto a carnalidade (no sentido que somos seres carnais). Não foi o pecado que deu a Adão e Eva a capacidade de curtir a variedade de alimentos, se alegrar com os tons do pôr-do-sol, chorar de rir de alguma brincadeira boba, sentirem românticos ou apaixonados, ou curtirem uma praia e tomar água de coco. Não foi a nossa natureza caída que criou os desejos sexuais, a apreciação de uma boa sobremesa ou a alegria explosiva quando nosso time ganha o campeonato. Cada detalhe foi desenhado pelo Criador. O pecado pode distorcer a criação divina mas falta-lhe a capacidade de criar algo do nada.

A REDENÇÃO RECRIA O MUNDO 

A mensagem do Evangelho promete um novo céu e uma nova terra. Mas isto não quer dizer que todas as consequências da redenção são meramente futuras. Em todas as épocas da história, se vê as bençãos da salvação: homens amando o próximo, servindo os pobres, sendo honestos, corajosos e fiéis. Uma vida transformada pelo Evangelho deve sim tocar outras vidas.

JESUS CRISTO FOI UM HOMEM PERFEITO 

Jesus Cristo não foi menos humano do que nós. Na verdade, Ele foi o homem mais perfeito a existir, já que sua humanidade não sofreu a corrupção do pecado. Sua perfeição não consistia em anular sua humanidade e sim em expressar perfeição de forma tangível. O apóstolo João combate a visão gnostica quando afirma: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos e nossas mãos apalparam, a respeito do Verbo da vida […] Sim, o que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos…” (1 João 1.1,3) Cristo pode rir de piadas, comemorar o casamento de amigos, torcer por um time esportivo com pureza, da mesma forma que nós faremos na nova terra.

SOMOS SANTOS MUNDANOS

Os puritanos do século 17 foram chamados de ‘santos mundanos'[1. Leland Ryken, Santos no Mundo, Editora Fiel], isto é: viviam no mundo sem participar do mundanismo. Não ignoravam seus contextos; antes, aplicavam os princípios bíblicos em todo aspecto da sua vivência. Longe de serem caracterizações estoicas, chatas e desligadas da realidade, foram homens e mulheres alegres, sinceros e festivos.   Entenderam, corretamente, que Cristo não veio nos salvar da nossa humanidade e sim da nossa incapacidade de glorificar Aquele que nos fez humanos.

Querido cristão: chega de mimimi

O mimimi nasce no descontentamento. É o resmungar de uma barriga cheia. É o choramingar dos Israelitas que queriam os peixes, pepinos, e melões da escravidão ao invés de desfrutar a liberdade (Nm 11.5).

A atual “geração mimimi”[1. A era dos direitos: geração “mimimi” acha que basta bater pé no chão para ganhar tudo de graça,  Rodrigo Constantino, veja.abril.com.br] reclama de tudo exceto suas próprias falhas. E este sentimento vem corrompendo o meio cristão. O povo de Deus – digo, o povo vitorioso que tem todo motivo para celebrar a esperança e glória em Cristo – se contenta em estar descontente. Nada está bom o suficiente para expressar gratidão. As obras de Deus não são tão maravilhosas assim; tudo está medíocre. E tudo é culpa dos outros.

De fato, as Escrituras não condenem o choro em si. Tudo tem o seu tempo determinado, inclusive o tempo de chorar. Mas as Escrituras condenam a insatisfação por trás dos nossos mimimis. Ela surge de diversas formas:

  1. Quando nos comparamos com outros. Para odiar sua vida basta idolatrar a vida de outrem. Quão rápido esquecemos que toda boa dádiva vem do alto. E assim a inveja alimenta nossa ingratidão. “Cobiçais e nada conseguis. Matais e invejais, e não podeis obter; brigais e fazeis guerras” (Tg 4.1).
  2. Quando esperamos um tratamento especial por sermos cristãos. O simples fato de sermos seguidores de Cristo não nos dá direito as melhores faculdades ou os melhores empregos. O mundo não nos deve tratamento vip por sermos filhos do Rei. Muito pelo contrário. Os mártires descritos em Hebreus 11 dão testemunho que são as tribulações que produzem a perseverança (Rm 5.3).
  3. Quando não reconhecemos nossas próprias falhas. Tantas vezes bancamos o ‘perseguido’, dizendo ser vitima do preconceito, quando na verdade as pessoas nos detestem, não por sermos cristãos, mas por sermos cristãos chatos, preguiçosos e arrogantes. Queremos tanto apontar o pecado alheio sem lidar com a trave em nosso próprio olho.
  4. Quando somos insatisfeitos com o Oleiro. Com quanta facilidade reclamamos do que Deus tem feito em nossas vidas! Criticamos a forma que Ele utiliza nós, os seus vasos de barro. “Eu queria mudar o mundo mas estou aqui liderando uma pequena aula mediocre de EBD.” Veja: não pertençamos a mesma massa? Não fomos formados pelas mesmas Mãos Santas? E no fim, não diremos em uma só voz, “Somos servos inúteis; fizemos somente o que devíamos fazer” (Lc 17.10)? Logo, confie na sabedoria soberana do nosso Olheiro. Somos fruto das suas mãos e do seu amor.
  5. Quando tentamos fazer o papel do Espírito Santo. Quantas discussões teológicas se tornam contenciosas porque um quer convencer o outro? E se esquece que é o Espírito Santo que convence da verdade. É Ele que nos edifica na maturidade cristã. Não devemos chorar pitangas quando alguém não concorde conosco. Calma, respire. Ore.

Cristão, da próxima vez que aparece uma oportunidade para fazer mimimi, escolha chorar pelas razões corretas:

  1. Chore com aqueles que chorem.
  2. Chore pelos seus próprios pecados. Ao invés de se comparar com os irmãos da sua igreja, compare-se com as Escrituras. E chore em arrependimento.
  3. Chore pelos pecados do seu país. “O príncipe e o juiz exigem suborno; os nobres impõem seu próprio desejo. Todos eles tramam o crime” (Miquéias 7.3).
  4. Chore em adoração. Considere o quão grande preço Cristo pagou na cruz; quão maravilhosa esperança é nossa; quão misericordioso é o nosso Deus. Somos co-herdeiros com Jesus Cristo “para que também com ele sejamos glorificados” (Rm 8.17). Pare e pense na eternidade que é reservada para você, pequeno vaso de barro. Viveremos no resplendor daquele que é Santo, Santo, Santo!

 

Como chamar atos terroristas de m​aus se padrões morais são relativos?

Ess​e​ é o triste dilema dos nossos dias.

Os atos horrendos em Paris, praticados por assassinos sanguessugas contra pais, maridos, esposas e filhos franceses traz​em​ à tona o real desequilíbrio ético que adoenta nosso mundo. De um lado, os líderes mundiais se ajuntam à voz do povo nas redes sociais, condenando os atos terroristas. Presidente Obama afirma que os terroristas serão trazidos à justiça por seus atos “ultrajantes” e ataques “contra a humanidade e contra os valores que compartilhamos”.

Mas do outro lado, nossas sociedades não querem reconhecer valores ou moralidade objetiva. No teatro do “tudo é relativo”, não há definições concretas. Nada se pode afirmar. Não existe “certo” ou “errado” porque a ciência não pode prová-los com fórmulas matemáticas. Ninguém nasce mulher. E milhares de bebês, roubados da dignidade de serem humanos, nem ainda os são permitido nascer. Os criminosos nas ruas são vítimas das famílias estruturadas que, por sua vez, estão perdendo sua estrutura conforme a palavra família é forçada a adotar definições bizarras. Homens não podem ser pais; mulheres não podem ser mães; nossos filhos não podem ser héteros. Não restringe-se o que se sente; paixões da juventude são a norma e dane-se a razão! Coerência é piada enquanto palhaços dirigem nosso país. Sob a bandeira da paz e amor, a ditadura da tolerância exige que todos os deuses sejam adorados e negados com a mesma veemência, inclusive aquele que amarra bombas nos seus filhos para lança-los em praça pública. Tudo é certo, tudo é aceito, nada será negado a não ser o bom senso, a virtude e a consciência.

Me diga então qual justiça se pode oferecer às vítimas dos atos terroristas que não seja somente a vingança? O sangue derramado clama por uma justiça real e eterna. Mas aonde a encontramos? Aonde? Dirão: “Terrorismo é detestável por causa da dor e sofrimento que causa.” Mas com qual base dizemos que o doloroso é indesejável? Não seria uma questão relativa? A dor de um não é o prazer do outro? “A opinião popular e a necessidade natural da evolução dizem que o sofrimento é indesejável.” Mas quem disse que elas têm direito a opinar? Não são elas o mero fruto de reações químicas? Quem há de julgar entre a reação química que leva à paz e aquela que leva à perseguição? “Nós damos valor à vida ainda que ela não tenha valor própria.” E quem disse que podemos impor aquilo que valorizamos para o resto do mundo? O terrorista não tem também seus valores? Sua opinião não seria tão valida quanta a nossa? Quem gerencia isso?

Nosso disfarce ético não durará por muito mais tempo. Usamos palavras como “justiça”, “humanidade” e “esperança” ao mesmo tempo que as arrancamos dos nossos dicionários.

Nesses dias escuros, a cosmovisão cristã é luz que ilumina. Nossa justiça baseia-se na santidade gloriosa de um Deus Criador que formou o homem e carimbou Sua lei sobre seu coração. Entendemos que nosso clamor por justiça é o clamor de uma alma perdida por seu Criador. Nossa sede por algo que faça sentindo só se satisfaz quando reconhecemos que a justiça parte de absolutos estabelecidos antes da fundação da Terra. Encontramos esperança neste cenário infernal quando submetemos a verdade de um Deus transcendente. Encontramos perdão e conforto quando reconhecemos que a misericórdia de Deus é tão preciosa quanto Sua justiça.

Encontramos consolo perante a morte. Os atos diabólicos de terror tem seus dias contados. Deus não tem crise ética. “Que ele julgue os aflitos do povo, salve os filhos do necessitado e esmague o opressor.” (Sl 72.4) Sua justiça prevalecerá.

O grande engano da teologia da prosperidade

Por mais que a teologia da prosperidade ofereça conquistas e vitórias, a ironia é que sua pregação, na verdade, rouba a satisfação dos seus seguidores. Ela foca tanto em nossas necessidades que ofusca o descanso que encontramos na soberania de Deus.

Ninguém dúvida que o apóstolo Paulo teve uma vida dolorida. 2Co 11.24-28 faz menção das torturas sofridas. Ainda assim, Paulo encontrou a satisfação que é tão almejada pela alma humana. A frase-chave é esta: ele encontrou satisfação apesar do sofrimento e não somente na ausência do sofrimento.

Já aprendi a estar safisfeito em todas as circunstâncias em que me encontre. Sei passar necessidade e sei também ter muito; tenho experiência diante de qualquer circunstância e em todas as coisas, tanto na fartura como na fome; tendo muito ou enfrentando escassez. (Fl 4.11b, 12)

Este versículo vaporiza a nossa tendência materialista de buscar mais bens para termos mais ‘satisfação’. Pense no que Paulo está dizendo. “Minha satisfação não vem das circunstâncias; vem do Deus soberano que governa sobre todas as circunstâncias. Logo, minha satisfação é inabalável.

E aí entendemos a profundidade do ataque feito pela teologia da prosperidade. Ela rouba dos seus seguidores a oportunidade de conhecer a satisfação inabalável da qual as Escrituras falam. Ela sussurra: “Quando você estiver próspero, então encontrará satisfação. Confie nisso! Toma posse disso!” Com isso, milhares são desiludidos, pensando que a paz do mundo é o ápice da fé cristã. Desconhecem as palavras de Cristo: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou. Eu não a dou como o mundo a dá. Não se perturbe o vosso coração nem tenha medo” (Jo 14.27). A paz do mundo é momentâneo; a paz de Cristo é eterno. A paz do mundo é superficial; a paz de Cristo é genuína. A nossa satisfação, paz e consolo precisam estar ancoradas na pessoa de Jesus Cristo para não serem levados pela ventania das circunstancias.

Amigo, enquanto pensar “só descansarei no poder de Deus quando experimentar um milagre“, você estará pondo sua fé no milagre e não no Senhor. Enquanto disser “estarei satisfeito somente após experimentar vitória nesta área da minha vida“, você não poderá cantar: “meus lábios te louvarão, pois teu amor é melhor que a vida” (Salmo 63.3). Qualquer vale doloroso, inclusive o vale da sombra da morte, se torna doce, quando a soberania e bondade de Deus nos sustenta.

“Um espírito cristão é contrário àquele espírito egoísta que consiste no amor próprio que vai após os objetos que se confinam e se limitam a ele próprio – tais como a riqueza terrana, […] ou sua própria tranquilidade e conveniência terranas…” – Jonathan Edwards [1. EDWARDS, Jonathan. Caridade e Seus Frutos, Editora Fiel, 2015. p. 192]

Leitura adicional: o texto “O Contentamento na Vida” pelo Pr. Thomas Tronco é excelente.

Capa: “An Allegory of Greed”[2. Detalhe: “An Allegory of Greed”, por Egbert Van Heemskerck II (Haarlem C. 1676-1744)]

Porque estudar as Escrituras de forma sistemática?

A teologia sistemática é uma forma de apreciar cada detalha da revelação divina. Alister McGrath comenta:

Conforme Thomas Guthrie (escritor escocês do século XIX), as Escrituras são como a natureza, na qual flores e plantas crescem livremente em seu habitat natural, sem a intervenção ordenadora das mãos humanas. O desejo humano por ordem faz essas plantas serem dispostas em jardins botânicos de acordo com sua espécie, para que possam ser estudadas individualmente de maneira mas detalhada. As mesmas plantas podem ser encontradas em contextos diferentes, sendo um deles natural, e o outro, resultado do ordenamento humano. A doutrina representa a tentativa humana de organizar as idéias das Escrituras, classificando-as de maneira lógica, de modo que sua mútua relação possa ser mais bem compreendida.[1. MCGRATH, Alister. Apologética cristã no século 21, Editora Vida, 2012, p. 40]