O curioso caso de Apocalipse 16.5 e um homem chamado Teodoro de Beza

Devemos ser gratos a Deus pelos estudiosos que exercem seus dons na área do crítico textual. Já tenho comentado o trabalho de Erasmus; permita-me destacar uma curiosidade que se encontra em algumas traduções da Bíblia graças a um calvinista do século 16.

Em 1598, Teodoro de Beza vivia na Suíça e preparava seu próprio texto grego. Enquanto copiava Apocalipse capítulo 16, Beza fez uma pequena alteração no seu texto grego no versículo 5, trocando a palavra ὅσιος (o Santo) por ἐσόμενος (hás de ser), para que se lesse:

E ouvi o anjo das águas, que dizia: Justo és tu, ó Senhor, que és, e que eras, e hás de ser, porque julgaste estas coisas. (Apoc 16.5)

Ao invés de ler:

E ouvi o anjo das águas, que dizia: Justo és tu, que és e que eras, o Santo, porque julgaste estas coisas.

Este tipo de mudança é conhecida como “emenda conjectural’, pois a alteração não é sugerida por qualquer manuscrito grego[1. WHITE, James, The King James Only Controversy, Bethany House Publishers, p. 63]. Na margem, Beza anotou um pequeno comentário, explicando que trocou as palavras para que o texto se harmonizasse melhor com outros versículos em Apocalipse, como em 1:4 e 1:8 que fazem menção daquele que “é, e que era, e que há de vir“.

Beza diz: “[João] sempre usa os três termos juntos, então aqui com certeza deve dizer “hás de ser”, afinal, por que João deixaria este trecho de fora?”[2. “…he always uses the three closely together, therefore it is certainly “and shall be,” for why would he pass over it in this place?” Fonte: Nouum Sive Nouum Foedus Iesu Christi, 1589, citado na página bibleone.org]

Entretanto, das poucas cópias em grego que existem do livro de Apocalipse, nenhum deles contêm esta variação sugerida por Beza. Esta variação também não se encontra nos textos gregos de Erasmus ou Stephens (publicados antes da versão do Beza), e nem ainda na Vulgata, a Bíblia em Latim daquela época. As Bíblias do Wycliffe (1382) e Tyndale (1526) também dizem “O Santo”. Inclusive, os irmãos Elzevir, que em 1633 publicaram seu Textus Receptus, também não usaram a sugestão feita por Beza, e com razão. Simplesmente não há documentos gregos que apoiem esta variação. Por isso, a leitura fiel é aquela que se encontra na maioria das traduções de hoje:

E ouvi o anjo das águas dizer: Justo és tu, que és e que eras, o Santo, porque julgaste estas coisas;

Mas indo um pouco além:

Em 1611, os tradutores convocados pelo rei Tiago usaram os textos de Erasmus, Stephanus e Beza, entre outros, como base para publicarem a Bíblia King James (KJV). Por alguma razão, optaram por usar a variação de Beza. Séculos mais tarde, em 1895, F. H. A. Scrivener adicionaria tal variação feita por Beza ao Textus Receptus para que o texto grego harmonizasse-se com a KJV[3. http://www.bibleone.org/Article.aspx?channel=1&article=33]. É este Textus Receptus, atualizado por Scrivener, que é publicado e vendido na atualidade.

Ao traduzir o texto bíblico para o português, João Almeida fez uso do texto de Beza[4. A Bíblia no Brasil, n. 160, 1992, p. 14, disponível em http://www.vivos.com.br/185.htm], e assim sua variação foi incluída no primeiro Novo Testamento publicado em Português, em 1689. Ela é mantida na versão atual da Almeida Corregida e Fiel (ACF) ainda que as demais edições do texto de Almeida prefiram a leitura que condiz com os manuscritos gregos.

Alguns, por negarem a importância do trabalho crítico textual, podem se encontrar constrangidos perante esse caso curioso. Pois, se preferem a variação feita por Beza, oras, ele era crítico textual! Ou, se preferem a leitura mais histórica, que condiz com os manuscritos, então acabam de tomar uma decisão com base no método do crítico textual! Outros, talvez, dirão que Beza efetuou a troca das palavras gregas por fazer parte de uma conspiração secreta que negava a santidade de Cristo.

É bom destacar que nem Beza e nem Erasmus afirmavam ter publicado a última versão possível do texto bíblico. Viviam num eterno loop: coletar, estudar, escrever, publicar e revisar. Beza chegou a publicar nove edições do seu texto grego. Ambos dependeram do trabalho de outros; assim como tradutores futuros dependeram deles.

Hoje, nosso entendimento da Palavra é fortalecido graças aos dons linguísticos que Deus deu a homens que buscam transmitir as Sagradas Escrituras com fidelidade.

As 10 objeções mais comuns ao cristianismo

De acordo com Alex McFarland, autor e apologista cristão, estas são as 10 objeções mais comuns ao cristianismo[1. The Ten Most Common Objections to Christianity – Alex McFarland]. Penso que muitos cristãos não procuram saber como responder a essas questões de forma lógica, racional e fundamentada. Muitas vezes nos contentamos com respostas superficiais e tons sarcásticos, ao invés de estarmos preparados para “responder a todo o que vos pedir a razão da esperança que há em vós”.

  1. Deus não existe.
  2. A criação é um mito.
  3. A Bíblia não é completamente autentica.
  4. A Bíblia não é completamente precisa.
  5. Jesus foi apenas um homem.
  6. Jesus não é a única maneira de chegar ao céu.
  7. Um Deus de amor não mandaria pessoas ao inferno.
  8. Pessoas são basicamente boas.
  9. Todos os cristãos são hipócritas.
  10.  Um Deus bondoso não permitira tanto sofrimento no mundo.

Pastores, pais e líderes de jovens: ajudem nossos jovens a lidarem e responderem estas dúvidas antes que algum professor secular ofereça suas respostas.

A ilustração do corpo para entender a Igreja Universal

David Martyn Lloyd-Jones considera o significado do corpo de Cristo em que está reunido todos os cristãos. “Procurando cuidadosamente manter a unidade do Espírito no vínculo da paz. Há um só corpo…” Ef 4.3,4

A Igreja é uma nova criação, e, ao trazê-la à existência, Deus fez uma coisa tão inteiramente nova como a criação do universo. Ele não tomou simplesmente um judeu e um gentio e os juntou algo assim como uma espécie de coalização, e os fez sentar-se juntos a uma mesa e os levou a um acordo de amizade mútua. Não! A Igreja é uma nova criação. Ela não é uma coleção de partes. O antigo foi destruído, já não há mais judeu e gentio. Essa distinção é eliminada por este corpo. Houve uma destruição antes de haver uma nova criação. Fomos libertos das coisas que nos separavam antes de Deus “criar dos dois um novo homem”.

Isto se pode ver claramente na analogia do corpo. O corpo consiste de dez dedos nas mãos, dez nos pés, duas mãos, dois pés, duas pernas, dois braços, e assim por diante. No entanto, o corpo não é uma coleção dessas partes; e nenhuma delas foi criada independente ou separadamente e depois colocada junta com as outras. Não é assim que o corpo se desenvolve e vem à existência. Como dissemos antes, tudo parte de uma célula que começa a desenvolver-se e a crescer, e pequenos filamentos germinam. Um destes filamentos será o antebraço direito, o braço e a mão; outro formará o mesmo no lado esquerdo. Então o filamento que forma o tronco desce, e as pernas se formam, provenientes do tronco. E tudo vem da célula original primitiva. As partes nunca tiveram existência independente; todas são rebentos, produtos desta célula central primitiva. E por isso que há uma unidade essencial no corpo.

A ilustração mostra aquilo que é próprio de nós, como membros da verdadeira Igreja Cristã. É neste ponto que pode muito bem acontecer que as igrejas visíveis, que são essenciais, nos façam extraviar. O que sucede com elas é que há um rol de membros, e, quando uma pessoa se une a uma igreja, o seu nome é acrescentado à lista dos que já são membros. É preciso que se faça isso, mas tende a dar-nos uma falsa noção da natureza da igreja mística. Não somos acrescentados a Cristo dessa maneira. A verdadeira Igreja é uma nova criação, e todos os que pertencem a ela nasceram do Espírito, nasceram de Cristo, são “participantes da natureza divina”. Uma vez que vejamos a verdade nesses termos, a inevitabilidade da unidade será óbvia. [1. Citação do livro “A Unidade Cristã” de D. M. Lloyd-Jones, Publicações Evangélicas Selecionadas, SP, 1994, p 47,48]

5 razões para cristãos dizerem NÃO

Aprenda a dizer não. Será melhor para você do que aprender latim.– Charles Spurgeon, aconselhando seus estudantes.

​Em​ nossa cultura, é esperado que toda id​e​ia seja acolhida. No ambiente da igreja, não é diferente. Sempre sobra muito trabalho para poucas pessoas. E muitas vezes, espera-se que o povo de Deus tope qualquer coisa que pareça ser edificante. Viu, você pode preparar uma lição sobre assunto X? Você pode ficar responsável pelo social no dia X? Você pode pesquisar o melhor preço? Apresentar um projeto? Ensinar os jovens? Etc, etc.

Mas nossa boa vontade não altera esta realidade: temos apenas 24 horas por dia. Nosso tempo — assim como nossas vidas — ​é​ limitad​o​. Ninguém consegue abraçar tudo o tempo todo. Fazemos bem em acolher o conselho de Spurgeon. Segue​m​ 5 motivos para dizer NÃO:

  1. Não idolatre as expectativas que outras pessoas possam ter de você.​ Muitos pens​a​m que, para agradar a Deus, temos que agradar a todas as pessoas. Negativo. Repare quantas vezes Cristo não atendeu às expectativas dos seus seguidores. Esta deve ser nossa oração: “Livra-me, Jesus, do desejo de ser sempre bem-visto, […] do medo de ser rejeitado.” (C. S. Lewis)
  2. Saiba distinguir entre o que é bom e o que é melhor. Boas oportunidades são mais comuns do que imaginamos. Mas nem tudo que é licito, convém. Não tenha receio de dizer não quando precisar proteger seu tempo de descanso, tempo com a família, etc. O que é melhor mere​ce​ prioridade; o que é bom terá que esperar para outra hora.
  3. Dê valor às suas palavras. Quando topamos tudo, nosso sim acaba significando “pode ser que dê” e perde o peso da convicção. É impossível contar com alguém que abraça o mundo. Que seu sim seja sim, e seu não seja não. Ao dizer não, você valorizará os projetos aos quais você disse “sim”.
  4. Reconheça que você não é o salvador da pátria. Cristo cuidará da Sua igreja. Você não é a melhor resposta ​ao​s problemas ao seu redor. Em humildade confesse seus limites. Estar super ocupado não é, necessariamente, uma marca de um cristão dedicado. Pode ser a marca de quem tem um complexo de herói e esteja falhando miseravelmente na sua tentativa de salvar o mundo. Você não é James Bond. Muito menos Jesus Cristo.
  5. Content​e​-se em participar de forma indireta. No porão do Tabern​á​culo Metropolitano havia uma sala de oração, onde poucos irmãos se reuniam para interceder pela igreja. Charles Spurgeon chamava essa prática da “força motriz desta igreja”. Erramos quando pensamos que só participa na obra quem “põe a mão na massa”. Apoie em oração. Encora​j​e​ seus irmãos nos seus trabalhos e demonstre interesse pelas suas vidas.

“Não existe uma fórmula para o sucesso. Mas, para o fracasso, há uma infalível: tentar agradar a todo mundo” – Herbert Bayard Swope, que ganhou o prêmio Pulitzer em 1917 (o primeiro ano em que o prêmio foi entregue)

Confissões de um ex-Landmarkista

Em 1968, Bob L. Ross publicou um artigo sucinto sobre as falhas da visão Landmarkista. Na conclusão, ele inclui essa pequena nota pessoal. Sua reflexão graciosa e humilde serve como exemplo para nós.

“Aqueles que me conhecem sabem que fui um Batista Landmarkista consistente na fé e prática. Escrevi artigos, folhetos e livretos apoiando aqueles princípios descritos pelo termo Landmark. Também vivi esses princípios, rebatizando todos que foram imersos por alguém que não fosse um administrador Batista Landmarkista, reorganizando igrejas que não foram começadas por outra igreja Bíblica (Landmarkista), e recusando reconhecer a validade de qualquer batismo ou organização eclesiástica que não originou-se na autoridade de uma igreja Batista sólida.

Hoje entendo o quanto contribuí para um sectarismo mau como resultado desse crença, mesmo acreditando estar fazendo o que é reto aos olhos de Deus. Falei contra homens abençoados pelo Espírito Santo, simplesmente porque não eram Batistas Landmarkistas. Considerei igrejas abençoadas pelo Espírito Santo como não escriturísticas simplesmente porque não pertenciam à genealogia Landmarkista. Reconheço que fiz muito mal; espero somente que o Senhor se agrade em permitir que eu desfaça um pouco do que fiz. E espero que você, querido leitor, leia esse artigo com uma mente disposta para o que tenho a dizer. Te asseguro que fui um Landmarkista exemplar no que eu cria. Duvido que possa ser mais Landmarkista do que fui. Mas o Landmarkismo foi removido de mim quando meu entendimento e coração foram abertos para os fatos simples da Bíblia e história. Espero que você também considere essas coisas com um entendimento disposto a aprender. Seja honesto consigo mesmo e com a verdade. É sempre melhor preferir a verdade sobre nossas próprias noções, independente do custo a ser pago. Quando uma pessoa muda ou abre mão de suas opiniões por causa do seu respeito pela verdade, ele faz o que todos os homens bons e sinceros devem fazer. A respeito dessas mudanças, C. H. Spurgeon comentou: “Confessar que você estava equivocado ontem, é tão somente reconhecer que você está um pouco mais sábio hoje; e ao invés de ser uma reflexão ruim da sua pessoa, é uma honra ao seu juízo, e demonstra que está crescendo no conhecimento da verdade.””

Fonte: Landmarkism: Unscriptural And Historically Untenable, Journal: Central Bible Quarterly.

[Arte: “Stayed Up All Night Wondering Where The Sun Went And Then It Dawned On Me” por Duy Huynh, 2013]

Pregação: uma obra exclusiva dos batistas landmarkistas?

Landmarkismo, em última analise, entende que a pregação deve ser obra exclusiva dos batistas landmarkistas. Ou seja: as pregações feitas por homens de outras denominações são feitas de forma ilegal, sem a autorização divina. Visto dessa forma, melhor séria que Jonathan Edwards, John Wesley, J.C. Ryle, etc. tivessem se calado ao invés de pregar a palavra sem a ordenação batista landmarkista.

“Ao tratar os ministros de outras denominações como ministros autênticos do evangelho, e receber qualquer uma das suas obras oficiais — seja pregação or imersão — como bíblicos, nós proclamamos, mais alto do que é possível com palavras, que suas congregações são igrejas evangélicas, e seus ensinos e praticas tão ortodoxas quanto as nossas; e assim encorajamos nossas famílias e o mundo a preferir se ajuntar as suas congregações ao invés das igrejas batistas, pois, quanto a eles, o escândalo ‘da cruz estaria aniquilado’.” – J. R. Graves, “Antiga Landmarkismo: o que é?” (1880), fundador do movimento landmarkista

Querido Pastor

Amanhã é domingo. Mais uma vez você subirá ao púlpito para pregar seu sermão. Mais uma vez você será tentado a questionar se a Palavra de Deus está tendo efeito na vida da sua congregação. Tem ovelhas que parecem que não mudam nunca. Não participam dos trabalhos, não amam aos irmãos, mas estão sempre prontos a criticar tudo e todos. Estão crescendo na fé tão lentamente que muitas vezes o progresso não é visível.

Amanhã você será tentado a trazer um sermão moralista. A focar somente no comportamento do cristão. A empurrar suas ovelhas no caminho certo. Força-los a tomarem passos maiores e mais consistentes. Faze-los sentir o quanto estão decepcionando suas expectativas.

Mas Pastor, o que precisamos ouvir é de Cristo. Do mais fraco ao mais forte, chegaremos no culto amanhã frustrados com a nossa incapacidade de vencer nossas lutas sozinhos. Cansados de ver pecado ao nosso redor e em nós mesmos. Tristes por termos brigado com nossos conjugues, odiado nossos chefes, faltado tanto paciência no transito quanto bom senso com o cartão de crédito. Chegaremos cansados, e com sede. E uma bronca – por mais merecida que ela seja – não nos saciará.

Precisamos de Cristo, pastor. Nos fale do nosso Salvador. Do seu amor generoso, sua graça maravilhosa, sua justiça eterna, seu perdão monumental. Nos fale do que Ele tem feito, o que está fazendo, e o que fará. Queremos ser atraídos novamente a Ele, enxergar sua proximidade, entender que sua soberania está fazendo com que essa bagunça das nossas vidas redunde para sua glória. Precisamos sair do culto maravilhados com a graça de Jesus e não só com a realidade das nossas falhas. Nos mostra quem é nossa motivação e como Ele nos capacita a ouvir sua voz e segui-lo.

Precisamos de exortação às boas obras? Com certeza. Mas não antes de sermos lembrados daquele que cumpre tudo em todos. Pedimos como os gregos: “Senhor, queremos ver Jesus.” (João 12.21) Mostre-nos o Pai, para então reconhecermos qual é nosso papel como seus filhos.

Neste domingo, pastor, confronte-nos com a graça do nosso Salvador.

Com amor,

Sua igreja

[Arte: Detalhe de “Shepherd and Sheep” por Anton Rudolf Mauve, primo do Van Gogh]

A Igreja universal na visão do Charles Spurgeon

Podemos dizer que Charles Spurgeon era landmarkista? Definitivamente não. Spurgeon não (1) negava a existência da igreja universal e, por implicação, também (2) não tinha as demais igrejas cristãs não-batistas como ilegítimas, falsas ou heréticas. Seguem algumas citações selecionadas:

Qualquer grupo de homens cristãos, reunidos pelos laços santos da comunhão para o propósito de receber as ordenanças de Deus, e pregando o que consideram ser a verdade de Deus, é uma igreja; e a soma dessas igrejas reunidas em um, de fato todos os verdadeiros crentes em Cristo espalhados pelo mundo, constituem Uma Igreja Universal Apostólica verdadeira, construída sobre a rocha, contra qual as portas do inferno não prevalecerão. Portanto, quando falo da igreja, não entenda que me refiro ao arcebispo de Canterbury, o bispo de Londres, uns vinte tantos dignitários, e todos seus ministros. E nem ainda quando falo da igreja me refiro aos diáconos, presbíteros, e pastores da denominação Batista, ou qualquer outra. Me refiro a todos os que amam o Senhor Jesus Cristo em sinceridade e verdade, pois estes compõem a igreja universal que tem comunhão em si e consigo, nem sempre com sinais externos, mas sempre com a graça interna; a igreja que foi eleita por Deus antes da fundação do mundo, remida por Cristo com seu próprio sangue precioso, chamada pelo Espírito, preservada pela sua graça e, no fim, será recolhida para constituir a igreja dos primogênitos, os quais nomes estão escritos no céu. [1. Sermão 191, “Christ Glorified as the Builder of His Church”, 2 de maio de 1858.]

Meus amigos, se não podeis abraçar todos aqueles que amam o Senhor Jesus Cristo, qualquer que seja a denominação a qual pertencem, e os ter como parte da Igreja universal, seus corações não são grandes o suficiente para entrar nos céus; pois, se sua visão for essa, não podeis afirmar, “Cristo é tudo”.  [2. Sermão 3446, “Christ is all”, 18 de fevereiro de 1915]

Mas glória a Deus […] pois ainda que a Igreja visível pareça ter sido rasgada e dilacerada em certos momentos, a Igreja invisível é uma. Os escolhidos de Deus, chamados por Deus, vivificados por Deus, comprados pelo sangue divino — são um em coração e um em alma e um em espírito. Ainda que usem nomes diferentes entre os homens, perante Deus, carregam o nome do Pai nos seus frontes. E são, e para sempre deverão ser, um. [3. Sermão 443, “The Two Draughts of Fish”, 6 de abril de 1862]

Sabemos que nem todos os de Israel são, de fato, israelitas e que a Igreja visível não é idêntica àquela Igreja que Cristo amou e pela qual entregou a Si mesmo. Há uma Igreja invisível e é ela o cetro e vida da Igreja visível! [4. Sermão 628, “A Glorious Church”, 7 de maio de 1865]

[Arte: Detalhe de “Charles Haddon Spurgeon” por Alexander Melville]

Mais ninguém, senão Jesus

“E, erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém senão Jesus.” (Mt 17.8)

Hoje, mais do que nunca, precisamos voltar nossos olhos somente para Cristo. Nos distraímos com tanta facilidade com os absurdos da nossa época. Chocados, sussurramos as depravações de um mundo caído. E em meio a todo esse espanto, muitas vezes esquecemos de nos maravilhar com Cristo.

Já são milhares de anos que o mundo vem se corrompendo. Cada geração redescobre as mesmas perversões. De fato, o cristão não pode se fazer de bobo, fingindo que não as vê, nem entende suas implicações. Não podemos fechar nossos olhos perante um mundo que se afoga.

Entretanto, não basta abrir os olhos. Precisamos direcioná-los a Cristo. Precisamos ser maravilhados com a glória do único Filho de Deus e, através desta verdade, enxergar o mundo como ele é: um palco, um cenário, um teatro aonde nosso Salvador, o soberano vitorioso, apresenta a história mais linda já contada. A história da sua graça, misericórdia e salvação.

Nossa oração, “Vem logo, Senhor Jesus” é um clamor para que nosso Salvador acabe com as distrações momentâneas, assim sendo único alvo da nossa atenção. Ninguém mais, senão Jesus!

[Arte: “The Blind Beggar” – Josephus Laurentius Dyckmans, c. 1853]

O grande erro da pregação moralista

Graeme Goldsworthy, no seu livro “Pregando toda a Bíblia como Escritura Cristã” (Editora Fiel), considera a ligação entre legalismo e pregações moralistas. Ambos satisfazem o desejo humano de alcançar metas por força própria.

“O pregador pode favorecer e estimular [uma] tendência legalista que está no âmago do pecado que habita em todos nós. Tudo que temos de fazer é enfatizar nossa humanidade: nossa obediência, nossa fidelidade, nossa rendição a Deus e coisas semelhantes. O problema é que estas coisas são todas verdades bíblicas legítimas, mas, se as colocarmos fora de perspectiva e ignorarmos sua relação com o evangelho da graças, elas substituem a graça pela lei. Se dissermos constantemente às pessoas o que eles devem fazer para terem sua vida em ordem, colocamos sobre elas um terrível fardo legalista. É claro que devemos obedecer a Deus; é claro que devemos amá-lo de todo o nosso coração, mente, alma e força. A Bíblia nos diz isso. Mas, se sempre dermos a impressão de que é possível fazermos isso por nós mesmos, não somente tornamos o evangelho irrelevante, mas também sugerimos que a lei é, de fato, mais fraca em suas exigências do que ela realmente é. O legalismo diminui a lei ao reduzir seus padrões ao nível de nossa competência. Há um ditado infeliz e enganador que, de vez em quando, ouvimos de pessoas que deveriam saber melhor: Deus não exige de nós o que não podemos conseguir. Isto subentende ou que Deus exige menos do que perfeição ou que a perfeição é menos perfeita, porque podemos atingi-la. Na verdade, a lei de Deus não é formulada de acordo com a capacidade pecaminosa do homem para cumpri-la, e sim como uma expressão do perfeito caráter de Deus.
Em termos práticos, se nós, como pregadores, estabelecemos as marcas do cristão espiritual, ou da igreja madura, ou do pai piedoso, ou do filho obediente, ou do pastor dedicado, ou do presbítero responsável, ou do líder de igreja sábio, e se fazemos isso de uma maneira que a conformidade é apenas uma questão de entendimento e de ser obediente, estamos sendo legalistas e nos arriscamos a destruir aquilo mesmo que desejamos construir. Podemos atingir uma aparência exterior de conformidade com o padrão bíblico, mas fazemos isso à custa do evangelho da graça, o qual sozinho pode produzir a realidade destes alvos desejáveis. Dizer o que devemos ser ou fazer, sem ligar isto com uma exposição clara do que Deus tem feito quanto ao nosso fracasso de ser ou de fazer perfeitamente o que ele quer, é rejeitar a graça de Deus e levar pessoas a ansiar por autoajuda e auto melhoramento de um modo que, sendo franco, é ímpio.”