O batista James Graves e o movimento landmarkista

No século XIX surgiu um movimento entre as igrejas batistas do sul dos EUA que visavam responder perguntas como, “Qual a origem dos Batistas?”, “Batistas devem cooperar com pedobatistas?” e “Quais têm sido as distintivas Batistas ao longo dos séculos?”. Ao longo de 30 anos, James Robinson Graves, pregador e editor de um jornal Batista, sistematizou e publicou suas respostas às essas perguntas, arquitetando assim o Landmarkismo (ou landmarquismo). O nome do movimento, que significa no inglês “demarcar terreno”, tomou seu nome, em parte, do Provérbio 22.28: “Não removas os marcos antigos que teus pais fixaram.” Graves entendeu que as igrejas batistas haviam se afastados dos seus antigos fundamentos, necessitando assim a reforma proposta pelas premissas Landmarkistas.

O movimento Landmarkista tem no seu âmago uma eclesiologia exclusivista, na qual Graves afirma que as igrejas Batistas Landmarkistas —descendentes de uma longa sucessão iniciada por João o Batista e continuada pelos Anabatistas — são as únicas igrejas legítimas no mundo. É tida como falsa qualquer igreja que não foi plantada por uma igreja Landmarkista ou não defende todas as premissas Landmarkistas. Para Graves, todas as igrejas não-batistas se levantam contra os Batistas legítimos, e praticam rebelião clara contra a pessoa e senhorio de Jesus Cristo.

O homem que estabelece qualquer forma de igreja como igual [à verdadeira] ou em oposição a ela e influencia os homens a se unirem a ele, com a impressão de que eles estão se unindo à igreja de Cristo, comete um ato de rebelião aberta a Cristo como o único Rei de Sião; enquanto ofendem, enganam e iludem os que desejam seguir a Cristo, e sobre isso ele disse que “melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de azenha, e se submergisse na profundeza do mar” (Mateus 18:6). Deve ser verdade que aqueles que originam tais falsas igrejas, e aqueles que os apoiam por seus meios e influência, ocupam a posição de rebeldes contra a autoridade legítima e suprema de Cristo. (Fonte: GRAVES, J. R.. The Dispensational Expositions of the Parables and Prophecies of Christ)

No Landmarkismo clássico, somente as igrejas batistas são autorizadas pelas Escrituras a pregar, batizar, ministrar a ceia, enviar missionários ou plantar outras igrejas. No seu livro Trilemma, Graves chega a afirmar, “ministros Protestantes não têm qualquer direito bíblico para pregar o Evangelho“.

A maioria dos Landmarkistas com quais tenho conversado desconhecem a história do movimento landmarkista. Acredito que essa falta de informação prejudica tanto aqueles que pensam em se unir ao movimento como aqueles que buscam deixá-lo. O documento anexado abaixo, intitulado “O Despertar do Landarkismo: Uma análise da vida e teologia de James R. Graves“, foi meu TCC entregue ao Seminário Martin Bucer em agosto 2015. Espero que as informações coletadas neste texto sejam úteis a outros. Divido o texto em duas partes: primeiro, a história pessoal de James Graves é traçada e, depois, são oferecidas resenhas da sua visão eclesiástica.

Baixe: O Despertar do Landmarkismo: Um Analise da Vida e Teologia do James Graves

Confissões de um ex-Landmarkista

Em 1968, Bob L. Ross publicou um artigo sucinto sobre as falhas da visão Landmarkista. Na conclusão, ele inclui essa pequena nota pessoal. Sua reflexão graciosa e humilde serve como exemplo para nós.

“Aqueles que me conhecem sabem que fui um Batista Landmarkista consistente na fé e prática. Escrevi artigos, folhetos e livretos apoiando aqueles princípios descritos pelo termo Landmark. Também vivi esses princípios, rebatizando todos que foram imersos por alguém que não fosse um administrador Batista Landmarkista, reorganizando igrejas que não foram começadas por outra igreja Bíblica (Landmarkista), e recusando reconhecer a validade de qualquer batismo ou organização eclesiástica que não originou-se na autoridade de uma igreja Batista sólida.

Hoje entendo o quanto contribuí para um sectarismo mau como resultado desse crença, mesmo acreditando estar fazendo o que é reto aos olhos de Deus. Falei contra homens abençoados pelo Espírito Santo, simplesmente porque não eram Batistas Landmarkistas. Considerei igrejas abençoadas pelo Espírito Santo como não escriturísticas simplesmente porque não pertenciam à genealogia Landmarkista. Reconheço que fiz muito mal; espero somente que o Senhor se agrade em permitir que eu desfaça um pouco do que fiz. E espero que você, querido leitor, leia esse artigo com uma mente disposta para o que tenho a dizer. Te asseguro que fui um Landmarkista exemplar no que eu cria. Duvido que possa ser mais Landmarkista do que fui. Mas o Landmarkismo foi removido de mim quando meu entendimento e coração foram abertos para os fatos simples da Bíblia e história. Espero que você também considere essas coisas com um entendimento disposto a aprender. Seja honesto consigo mesmo e com a verdade. É sempre melhor preferir a verdade sobre nossas próprias noções, independente do custo a ser pago. Quando uma pessoa muda ou abre mão de suas opiniões por causa do seu respeito pela verdade, ele faz o que todos os homens bons e sinceros devem fazer. A respeito dessas mudanças, C. H. Spurgeon comentou: “Confessar que você estava equivocado ontem, é tão somente reconhecer que você está um pouco mais sábio hoje; e ao invés de ser uma reflexão ruim da sua pessoa, é uma honra ao seu juízo, e demonstra que está crescendo no conhecimento da verdade.””

Fonte: Landmarkism: Unscriptural And Historically Untenable, Journal: Central Bible Quarterly.

[Arte: “Stayed Up All Night Wondering Where The Sun Went And Then It Dawned On Me” por Duy Huynh, 2013]

Pregação: uma obra exclusiva dos batistas landmarkistas?

Landmarkismo, em última analise, entende que a pregação deve ser obra exclusiva dos batistas landmarkistas. Ou seja: as pregações feitas por homens de outras denominações são feitas de forma ilegal, sem a autorização divina. Visto dessa forma, melhor séria que Jonathan Edwards, John Wesley, J.C. Ryle, etc. tivessem se calado ao invés de pregar a palavra sem a ordenação batista landmarkista.

“Ao tratar os ministros de outras denominações como ministros autênticos do evangelho, e receber qualquer uma das suas obras oficiais — seja pregação or imersão — como bíblicos, nós proclamamos, mais alto do que é possível com palavras, que suas congregações são igrejas evangélicas, e seus ensinos e praticas tão ortodoxas quanto as nossas; e assim encorajamos nossas famílias e o mundo a preferir se ajuntar as suas congregações ao invés das igrejas batistas, pois, quanto a eles, o escândalo ‘da cruz estaria aniquilado’.” – J. R. Graves, “Antiga Landmarkismo: o que é?” (1880), fundador do movimento landmarkista

A Igreja universal na visão do Charles Spurgeon

Podemos dizer que Charles Spurgeon era landmarkista? Definitivamente não. Spurgeon não (1) negava a existência da igreja universal e, por implicação, também (2) não tinha as demais igrejas cristãs não-batistas como ilegítimas, falsas ou heréticas. Seguem algumas citações selecionadas:

Qualquer grupo de homens cristãos, reunidos pelos laços santos da comunhão para o propósito de receber as ordenanças de Deus, e pregando o que consideram ser a verdade de Deus, é uma igreja; e a soma dessas igrejas reunidas em um, de fato todos os verdadeiros crentes em Cristo espalhados pelo mundo, constituem Uma Igreja Universal Apostólica verdadeira, construída sobre a rocha, contra qual as portas do inferno não prevalecerão. Portanto, quando falo da igreja, não entenda que me refiro ao arcebispo de Canterbury, o bispo de Londres, uns vinte tantos dignitários, e todos seus ministros. E nem ainda quando falo da igreja me refiro aos diáconos, presbíteros, e pastores da denominação Batista, ou qualquer outra. Me refiro a todos os que amam o Senhor Jesus Cristo em sinceridade e verdade, pois estes compõem a igreja universal que tem comunhão em si e consigo, nem sempre com sinais externos, mas sempre com a graça interna; a igreja que foi eleita por Deus antes da fundação do mundo, remida por Cristo com seu próprio sangue precioso, chamada pelo Espírito, preservada pela sua graça e, no fim, será recolhida para constituir a igreja dos primogênitos, os quais nomes estão escritos no céu. [1. Sermão 191, “Christ Glorified as the Builder of His Church”, 2 de maio de 1858.]

Meus amigos, se não podeis abraçar todos aqueles que amam o Senhor Jesus Cristo, qualquer que seja a denominação a qual pertencem, e os ter como parte da Igreja universal, seus corações não são grandes o suficiente para entrar nos céus; pois, se sua visão for essa, não podeis afirmar, “Cristo é tudo”.  [2. Sermão 3446, “Christ is all”, 18 de fevereiro de 1915]

Mas glória a Deus […] pois ainda que a Igreja visível pareça ter sido rasgada e dilacerada em certos momentos, a Igreja invisível é uma. Os escolhidos de Deus, chamados por Deus, vivificados por Deus, comprados pelo sangue divino — são um em coração e um em alma e um em espírito. Ainda que usem nomes diferentes entre os homens, perante Deus, carregam o nome do Pai nos seus frontes. E são, e para sempre deverão ser, um. [3. Sermão 443, “The Two Draughts of Fish”, 6 de abril de 1862]

Sabemos que nem todos os de Israel são, de fato, israelitas e que a Igreja visível não é idêntica àquela Igreja que Cristo amou e pela qual entregou a Si mesmo. Há uma Igreja invisível e é ela o cetro e vida da Igreja visível! [4. Sermão 628, “A Glorious Church”, 7 de maio de 1865]

[Arte: Detalhe de “Charles Haddon Spurgeon” por Alexander Melville]