Por uma Vida Bagunçada!

Por uma Vida Bagunçada

Passei junto ao campo do preguiçoso,” diz o Sábio, “e o seu muro de pedra estava derrubado.” (Prv. 24.13) Na ausência de uma força contrária, tudo tende a se desfazer — muros, casas, mesas de trabalho, relacionamentos, e sustento. E esse é o pecado do preguiçoso: falta-lhe intencionalidade para impedir que a destruição tome conta da sua vida.
 
Mas há uma diferença entre o descuido do preguiçoso e a bagunça de uma vida produtiva.
 
Esse contra-ponto é levantado em Provérbios 14.4: 

Onde não há bois o celeiro fica vazio…
Um celeiro arrumado, limpo e cheiroso é sinal que não há produtividade. Um celeiro vazio pode não ter bagunça, mas também não tem aquilo para qual foi construído. É vazio, mas é inútil. Não tem sujeira, mas também não tem propósito.
 
Fazendo a ponte para nossa realidade, podemos considerar que a bagunça saudável é sinal que há movimento, crescimento, criação e vida. Lá em casa essa realidade é diária, já que os meninos são apaixonados por espalhar os brinquedos por todos os cantos. E claro, para criar suas maravilhosas obras artísticas, eles pintam até seu cabelo.
 
E eles servem como uma parábola da vida: criação que preste vai bagunçar sim. Crescer é bagunçado, imaginar é bagunçado, viver é bagunçado. O desafio é arrumar a 1ª bagunça antes que as próximas desmoronam em cima da gente. Mas a bagunça é certa porque o celeiro não está vazio. E graças a Deus por isso.
 
Graças a Deus por bagunça.

One thought on “Por uma Vida Bagunçada”

  1. Me lembrou muito essa poesia de Carlos Drummond de Andrade:

    “Casa arrumada é assim:
    Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação
    e uma boa entrada de luz.
    Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico,
    um cenário de novela.
    Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando,
    ajeitando os móveis, afofando as almofadas…
    Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:
    Aqui tem vida…
    Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras
    e os enfeites brincam de trocar de lugar.
    Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições
    fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
    Sofá sem mancha?
    Tapete sem fio puxado?
    Mesa sem marca de copo?
    Tá na cara que é casa sem festa.
    E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
    Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
    Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante,
    passaporte e vela de aniversário, tudo junto…
    Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
    A que está sempre pronta pros amigos, filhos…
    Netos, pros vizinhos…
    E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca
    ou namora a qualquer hora do dia.
    Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
    Arrume a sua casa todos os dias…
    Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela…
    E reconhecer nela o seu lugar.”

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