Encontrando Nossa Identidade em um Mundo de Fakes

Olha a crise: temos ódio profundo por hipocrisia, mas amamos a idéia de viver totalmente leal a nossa essência. E somos, essencialmente, mutáveis e inconstantes! Mudamos de gostos, de opinões, de sentimentos.

O cristão não é isento dessa crise. Ele conhece a frustração de se chamar um “seguidor de Cristo” mas se deparar no ato do pecado. E não somente meros pecados “leves” – mas pecados intencionais e grotescos.

O diabo nessas horas tem uma resposta na ponta da língua: você é hipócrita por que você é falso. Você imita o salvo, mas não é salvo de fato. Se você fosse um discípulo autêntico de Jesus Cristo, você seria totalmente coerente com a sua essência. Você é fake news.

ESCRAVOS DE SI

É sutil, mas o mundo divulga essa idéia em cada esquina: a sua identidade é formada a partir daquilo que você faz. Um modelo exala beleza na capa da revista? Então ela é linda na sua essência. Uma celebridade gasta dinheiro como se não houvesse amanhã? Então é rico. Um CEO tem a última palavra na empresa? Então é poderoso, merecedor de admiração.

O lado negativo, claro, é que quando você finalmente encontra uma identidade, você fica preso a ela. Você não pode ser outra coisa. Ser outra coisa é ser hipócrita e falso. Então o gay não pode deixar de ser gay, feminista não pode deixar de ser feminista, ateu não pode deixar de ser ateu. Não é permitido que os jovens e belos se envelhecem, e nem os apaixonados deixarem de sentir meros sentimentos a flor da pele. Você é escravo daquilo que te define.

O EFEITO DA CRUZ

O Cristianismo, porém, aponta outro caminho: até o discípulo Tomé, mesmo em crise de dúvidas acerca do Cristo ressurrecto, continuou sendo discípulo. Pedro, chamado por Jesus, não se tornou menos chamado quando negou o Senhor na crucificação. Não perderam sua identidade como filhos de Deus e irmãos de Cristo. Antes, perderam sua identidade no primeiro encontro com Jesus: o leproso deixou de ser leproso, o manco saiu andando, o ladrão de impostos prometeu devolver o valor roubado, e os mortos em ofensas e pecados deixaram de ser defuntos. Encontraram uma identidade que é fincada na essência de outrem. Encontraram Jesus Cristo, o Messias.

Em uma sociedade desperado por SER alguma coisa, esses primeiros discípulos descobriram o Único que diz “Eu SOU”.

Qual é a nossa identidade em Jesus Cristo? Amado, perdoado, aceito, filhos do Deus Altíssimo! Percebe como nossa identidade é descrito por ações divinas – e não humanas. Meu trabalho, salário, ou sexualidade não me define. Não sou preso a eles. Antes, sacrifico o que tenho e desejo para honrar Aquele em “quem não há sombra de variação”. Ele é autêntico. Verdadeiro. Real. Fiel.

Qual é nosso papel? Somos chamados a andar de acorda com essa identidade em Jesus Cristo, e não de acordo com uma essência forjada na fogueira dos nossos próprios corações.

Então, o que sou? Sou obra dele. Sou fruto da sua iniciativa. Produto do seu amor. Sou tudo o que Ele diz que sou. E se o Filho me libertou, sou verdadeiramente livre.

A Gaveta dos Sonhos

Se o papel do marido se resume em tomar a iniciativa (seja no perdão, arrependimento, servir ou amar), existem então duas maneiras em que deixamos de cumprir nosso papel:

  1. Tomando a inciativa somente naquilo que serve nossos próprios propósitos;
  2. Nos contentando a reagir, e não liderar. Esperando que alguém outro tome a iniciativa, seja esposa, sogra ou a sociedade.

    Enquanto o primeiro é tirano, o segundo é preguiçoso e covarde. Ambos servem a si mesmos. Se sacrificam somente quando ganham algo em troca. Logo, são fáceis de manipular, e por isso algumas mulheres os preferem.

    No filme “Peter Pan” (2003), tem uma fala belíssima que resume o que é ser um líder. O filme em si é meio tedioso, mas o escritor foi inspirado quando escreveu a cena:

    John e seus irmãos não sossegam, animados com histórias sobre piratas e guerreiros. A mãe, Senhora Darling, comenta que seu pai também é valente.

    John: O papai? Valente?

    Senhora Darling: Há tipos diferentes de coragem, John. Há a coragem de pensar no próximo antes de si mesmo. Seu pai nunca abrandiu uma espada ou atirou com um revolver, graças a Deus…mas ele fez muitos sacrifícios para a família dele e guardou muitos sonhos.

    Jona: Onde ele os guardou?

    Senhora Darling: Ele os guarda numa gaveta, e as vezes tarde da noite, nós deixamos eles saírem…e o sonho está cada dia mais bonito e maior, assim é mais difícil fechar a gaveta…mas ele a fecha, e por isso ele é valente.

O que é meu “andar com Deus”?

Existe uma certa linguagem que cristãos costumam usar, o tal “evangeliquês”. Usamos certas palavras com tanta frequência que, as vezes, nem sabemos exatamente o que queremos dizer por elas.
 
Um exemplo disso é aquela pergunta bem-intencionada, “Como está seu andar com Deus?” O que queremos dizer exatamente sobre “andar” com Deus?
 
Sempre entendi que meu ‘andar’ era a minha vida devocional. Quem pergunta acerca do meu andar quer saber se estou lendo minha Bíblia todo dia, e orando. O que é um ótimo e necessário hábito, claro.
 
Mas pense nos cristãos do 1º século após Cristo. Poucos tiveram uma Bíblia. Nem todos, inclusive, sabiam ler! As poucas cópias dos Evangelhos, ou, talvez, de alguns capítulos do Novo Testamento, eram lidas nas reuniões semanais e repassadas entre as famílias.
 
Imagine, por um momento, que estamos no 1º século. Estamos visitando uma família cristã, que mantém suas reuniões em secreto devido a perseguição. Pergunte ao marido, um fazendeiro analfabeto, ou aos seus filhos de 7 e 15 anos: “Como está seu andar com Deus?”
 
Qual resposta eles dariam?
 
Aos poucos descubro que a parte mais difícil da caminhada cristã não são os hábitos em si: as leituras, as orações antes das refeições, ou os cultos. A parte mais difícil é descansar na providencia de Deus. É crer que Ele suprirá toda necessidade. É fugir da ganância e consumismo da nossa cultura que sugere, assim como o serpente insinuou no Jardim do Éden, que Deus não sabe de todas as coisas.
 
É obedecer as palavras de Cristo: “Não andeis ansiosos por coisa alguma; antes em tudo sejam os vossos pedidos conhecidos diante de Deus pela oração e súplica com ações de graças; e a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos.”
 
Parece ironia, mas descansar em Deus é difícil. Minha natureza se revolta contra essa dependência nEle. Só descansamos quando confiamos, plenamente, que Ele é todo-poderoso. Que estamos escondidos na sua grandeza. Protegidos no seu amor. Aceitos no seu Filho. Capacitados pelo seu Espírito. Chamados para uma viva esperança. Recebidos perante teu Trono.
 
Os cristãos do 1º século, um povo simples, dolorosamente perseguido, tiveram um testemunho que impactou o mundo. Por quê? Porque andaram com Deus. Ou, dito de outra forma, andaram com profunda consciência de quem Deus é.
 
Que possamos assim andar em 2018.

Discípulos que Pensam

 Deve constar em algum livro best-seller sobre liderança: quando alguém duvidar da sua capacidade como líder, nunca – mas nunca mesmo – permita que essa dúvida espalhe aos outros.
 
É por isso que fico maravilhado com João 6.67. Uma grande multidão se ofende com as palavras de Cristo e desiste de segui-lo. Não foi apenas uma família ou outra. Não foi metade dos seguidores. Foi a maioria. Voltaram para trás.
 
Sejamos honestos: a opinião popular mexe com a gente. Sentimos sim abalados quando a maioria das pessoas desistem de confessar aquilo que confessamos.
 
E o que Jesus faz perante esse êxodo de seguidores? Essa parte é tão legal: Ele olha para os poucos discípulos restantes e pergunta, “Quereis vós também retirar-vos?
 
Cara, é demais. Tipo, é a pior coisa que um líder poderia dizer nessa situação. Mas Jesus não é mero líder. É Deus.
 
E Deus deseja que seus adoradores saibam o POR QUE estão adorando. Jesus deseja que seus discípulos parem e pensem sobre porque estão nesse caminho.
 
Percebeu como Jesus Cristo não resolveu a crise de dúvida dos discípulos? Antes, Ele planta a pergunta nos seus corações: “Porque estou aqui? Porque não desisto agora mesmo?
 
A pergunta que Ele faz é brilhante porque a única forma de responde-la é fazendo alguma afirmação acerca de Cristo. Quem se retira, nega que Jesus é o Messias prometido, o próprio Filho de Deus. Quem permanece, confessa que Jesus é mais do que um mero rabino; é o Rei dos reis.
 
Ou seja, ainda que a pergunta se refere a uma ação dos discípulos, o objetivo da pergunta não é a ação em si. O objetivo é a reflexão sobre quem é Jesus Cristo.
 
E a resposta de Pedro é cansada mas cristalina: “Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna.
 
Para quem iremos nós que é igual a ti? Que entrega sua vida por amor aos pecadores? Que é Mediador entre Deus e os homens? Que tem compaixão de mim pecador? Que perdoa o endemoniado, o malfeitor na cruz, e a adúltera? Nossa alma está inquieta, e insatisfeita com o brilho desse mundo. Temos sede pela verdade mas medo de ser julgado por ela. Aonde está a esperança e salvação?
 
Para quem iremos nós?
 
E a voz de Jesus soa pela eternidade: “As palavras que eu vos tenho dito são espirito e vida.” Ele é a Verdade e a Vida. Ele tem as Palavras da Vida Eterna. Não há outro, porque não há outro Deus. E portanto, em nenhum outro há salvação.

Por uma Vida Bagunçada

Passei junto ao campo do preguiçoso,” diz o Sábio, “e o seu muro de pedra estava derrubado.” (Prv. 24.13) Na ausência de uma força contrária, tudo tende a se desfazer — muros, casas, mesas de trabalho, relacionamentos, e sustento. E esse é o pecado do preguiçoso: falta-lhe intencionalidade para impedir que a destruição tome conta da sua vida.
 
Mas há uma diferença entre o descuido do preguiçoso e a bagunça de uma vida produtiva.
 
Esse contra-ponto é levantado em Provérbios 14.4: 

Onde não há bois o celeiro fica vazio…
Um celeiro arrumado, limpo e cheiroso é sinal que não há produtividade. Um celeiro vazio pode não ter bagunça, mas também não tem aquilo para qual foi construído. É vazio, mas é inútil. Não tem sujeira, mas também não tem propósito.
 
Fazendo a ponte para nossa realidade, podemos considerar que a bagunça saudável é sinal que há movimento, crescimento, criação e vida. Lá em casa essa realidade é diária, já que os meninos são apaixonados por espalhar os brinquedos por todos os cantos. E claro, para criar suas maravilhosas obras artísticas, eles pintam até seu cabelo.
 
E eles servem como uma parábola da vida: criação que preste vai bagunçar sim. Crescer é bagunçado, imaginar é bagunçado, viver é bagunçado. O desafio é arrumar a 1ª bagunça antes que as próximas desmoronam em cima da gente. Mas a bagunça é certa porque o celeiro não está vazio. E graças a Deus por isso.
 
Graças a Deus por bagunça.

O Cristão vive olhando para trás?

Em um artigo recente, o autor e teólogo Derek Rishmawy aponta uma preciosa verdade: o que define o cristão é o que ele É em Jesus, e não aquilo que FOI.

O cerne do testemunho cristão não deve ser, portanto, falar horas a fio sobre os equívocos da igreja, tradição ou tipo de teologia da qual viemos. Antes, devemos compartilhar a graça, misericórdia e esperança a qual somos atraídos.

Mas como é comum ver ex-neopentecostais, ex-fundecas, ex-legalistas, ex-liberais etc descendo a lenha sobre seus passados. Ou, como é comum ver Calvinista, Reformado, ou Batistão que só comenta os mil erros da teologia que antes confessava.

É “regozijar-se em ser superior aquilo que foi deixado para trás“, diz Derek, característica essa que define o apóstata, e não o cristão.

Sabemos de onde viemos, claro, e somos gratos por enxergar os erros cometidos pelo caminho. Mas o que define o cristão é descansar, celebrar, e compartilhar a graça que é encontrada em Jesus Cristo.

A Bíblia não é Netflix

Acredito que não sou o único que já tentou ler a Bíblia toda em 1 ano, e falhou. Repetidas vezes.

Em Janeiro começa a leitura voraz, rapidamente ticando a programação diária. Mas, quando o ritmo perde força, percebo que qualquer atraso sobrecarrega as leituras futuras.

Em meados de Abril ou Maio me deparo com dezenas de capítulos para ler em Deuteronômio, Obadias, Amós e Ageu. A solução? Usar o método Netflix: fazer maratonas. Separo horas para rapidamente ler e ticar os capítulos da programação. Fazendo uma péssima imitação do Flash, tento ler sobre as leis judaicas em alta velocidade.

Que fique claro: é bom ter metas, e é essencial que o cristão tenha uma vida devocional. Se você tem o hábito de ler a Bíblia toda em 1 ano, continue nesse propósito.

Mas, na minha experiência, percebi que minhas maratonas de leitura não estavam paralelas com minha compreensão. Havia quantidade de leitura, mas pouca reflexão. Se Filipe aparecesse ao meu lado e perguntasse, “Entendes o que lês?”, eu teria que confessar que não. Até entendi as histórias e personagens principais, mas não havia reflexão sobre como esses mil momentos diferentes encaixavam na narrativa maior da pessoa e obra de Jesus Cristo.

Assim como destaca o apostolo Paulo, devemos preferir 5 palavras compreensíveis a 10mil palavras confusas (1Co 14.19). As vezes, para fazer mais, é preciso fazer menos.

Se você está pensando em programar sua leitura Bíblica em 2018, talvez é uma boa hora priorizar sua reflexão. Tanta faz se você lê 5 versículos ou 5 capítulos por dia: o importante é que tenha tempo para enxergar a grandeza do poder e plano de Deus no texto, e que isso então desperta confissão, adoração e oração.

Superstição Evangélica

Se antes o gato preto dava azar, agora é o número 666 escondido no logo da Disney, da Coca-Cola, das marcas de roupa ou estilos de música que estão em alta.

O cristão crê que o único Deus todo-poderoso tem a palavra final. Por isso o apóstolo Paulo tem ZERO crise quanto a carne oferecida aos ídolos. Mas a superstição é blasfema: ela sugere que há um poder místico que coloca em xeque-mate o poder do próprio Espírito Santo.

Há! Minha porta é mais estreita do que a sua!

Todo cristão conhece aquele versículo famoso: “a porta é estreita, e o caminho que conduz à vida, apertado, e são poucos os que a encontram” (Mt 7.14).
 
Mas temo que muitos podem tirar conclusões erradas. Uma delas é imaginar que “Quanto mais na minoria, melhor!”. Como se Deus se agrada somente com números pequenos, ou com igrejas que se isolam e tentam caminhar sozinhos.
 
Cria-se uma aversão contra tudo que é ‘numeroso’. Já tomamos como certo que Deus se agrada com aquela igreja pequena do bairro, enquanto olhamos tortos para as igrejas grandes no centro da cidade.
 
E pior: esse equívoco alimenta intriga no próprio povo de Deus. Uma espécie de competição entre as denominações para ver quem tem a porta mais estreita. Queremos “varrer nosso próprio quintal” sem pedir ajuda aos outros cristãos porque, supostamente, Deus espera que caminhamos por um caminho aonde a pouca convivência.
 
Algumas considerações:
 
1. NÃO É O TAMANHO DO MOVIMENTO QUE SALVA. Há muitas seitas diabólicas que são menores do que o Cristianismo. E nem por isso são mais belos aos olhos do nosso Deus. Nos 12 discípulos, Judas estava na minoria. É o caminho que caracteriza os poucos, e não os poucos que caracterizam o caminho.
 
2. O QUE É PEQUENO PARA DEUS É GIGANTESCO PARA OS HOMENS. É verdade que nem todos vão para o céu. Mas o número das pessoas que vão é, para mentes humanas, um número incompreensível. São milhares de milhares de almas que foram adotados e concedidos a graça de serem irmãos do único Filho de Deus.
 
3. O FOCO ESTÁ NO TAMANHO DO CAMINHO E DA PORTA. Jesus Cristo disse, “Eu sou o caminho, a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai se não por mim.” Não existem alguns caminhos. Ou poucos caminhos. Existe somente UM caminho e UMA porta. Portanto, estando em Cristo, temos TUDO que precisamos para encontrar nossa identidade. Cristo não precisa que subtraímos alguma coisa dele para torná-lo mais exclusivo.
 
4. O REINO DE DEUS NUNCA ESTEVE EM RECESSO. Quando Cristo prometeu que as portas do inferno não prevalecerão contra sua igreja, fica claro que a vitória é certa. O Reino de Deus não está diminuindo. Ele avança e aumenta a cada nova alma.
 
5. O TAMANHO DO CAMINHO NÃO DEVE NOS DESANIMAR. Qual deve ser nossa reação quando Mateus diz que “são poucos os que encontram” o caminho estreito? Desistir de ver muito fruto? Diminuir nossas expectativas? A resposta se encontra no mesmo capítulo 7 de Mateus. Leia os versículos 7—12: “Pedi, e vos será dado; buscai, e achareis; batei, e a porta vos será aberta….”
 
Em comparação com os muitos que insistem em buscar a perdição, são poucos que descobrem a beleza do Evangelho. Mas o que é impossível para os homens, é possível para Deus.
 
Que esses poucos sejam numerosos!